Beco
Ele me olha com olhos de outono e eu, sem saber o que fazer, disfarço a resposta que tanto aguarda... Passo ao largo, deixando ao abandono a verdade. Assim, penso preservá-lo, guardá-lo um pouco mais.
Apesar do meu egoísmo, ele sabe. Eu sei que, lá no fundo, ele sabe.
Embora a certeza, tento sorrir, fingir, animá-lo o mais que posso:
Amanhã você já deverá ir para o quarto... Quer que eu lhe traga alguma coisa especial? O que você quer? É só dizer... Amanhã vai fazer sol..
Mas seu olhar não engana... É de minutos, horas... um dia? Jamais uma semana!
Ele não tem medo da ilustre desconhecida. Age como sempre... como se estivesse pronto para uma viagem, ou para lançar-se em uma aventura qualquer...
Em má hora sou tomada pela inveja...
Um beijo, um até breve... O sorriso com que se despede não deixa uma única pista... Saímos, eu e a angústia que penso camuflada, totalmente desarvoradas...
Logo será amanhã. E não há como mudar isto!
Volto para casa caminhando. Tenho que mexer o corpo. Preciso fazer alguma coisa, ainda que essa coisa não resolva porra nenhuma, - não mude uma única vírgula do porvir...
O vento gelado, penetra minha roupa, adormece meu corpo, encolhe a minha mente... sensação de impotência. Estremeço, e aperto o passo. Dou tudo por uma bebida, - qualquer droga -, capaz de aquecer a alma e devolver-me alguma vida...
Enquanto caminho, lembro-me de tanta coisa... mas não consigo deixar de pensar que o tempo está andando mais depressa do que eu... Não há o que eu possa fazer... O amanhã vem aí...
Merda!
ju rigoni (1988)
Imagem obtida via
google. Infelizmente, não consegui descobrir o nome do autor. Se você o conhece, por favor, informe para que eu possa inserir o devido crédito.
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ju rigoni escreveu. Publicado às 6:43 PM |
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