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Segunda-feira




A Ressaca

Nestor acordou com aquele bafo de botar gambá a correr. Uma puta dor de cabeça! Foi para o banheiro, livrou-se da roupa de ontem, abriu o chuveiro e enfiou-se debaixo dele como quem busca a salvação da própria alma. Ficou lá, a água escorrendo pelo corpo ,... tentando lembrar-se como viera parar em casa... Não se recordava de nada. Absolutamente nada! "Espero não ter inserido mais um belo episódio à minha coleção de vexames...", preocupava-se.

Nem bem engolira o antiácido e o som da campainha do telefone tirou-o dos pensamentos.

- Alô?...
- E aí, cara? Tá melhor?...
- Fora o gosto de cabo de guarda-chuva na boca, a azia, aquela dorzinho na altura do fígado, tá tudo muito bem!
- Rapá, ontem você deu trabalho, viu?
- Tá legal! Conta. Mas conta sem sacanagem, hein...
- Nem é preciso, que ontem você abusou da inconveniência...
- E...
- Sabe a mulher do prefeito?...
- Aquela morena gostosa?
- A própria. Você passou a mão na bunda dela e só não tomou uma bifa porque o homem em pessoa dispensou o segurança, alegando que era só a inconsequência de um ébrio.
- Haja savoir-faire... Esse cara é um gentleman!!!
- E aquele buffet de tirar o fôlego...
- Um espetáculo! Só de olhar a comida me senti alimentado...
- Bem, espero que todo mundo tenha se sentido assim, porque você subiu na mesa e chutou tudo que havia em cima...
- O que você está me dizendo?...
- É rapá... Ontem você estava O bicho!...
- E por que vocês não me tiraram logo de lá, porra?
- Era exatamente o que pretendíamos fazer mas, de repente, você sumiu!... Nós achamos até que em meio a bebedeira você tivesse se jogado lá do terraço...
- Cualé, meu amigo. Fico bêbado, não doido!
- A linha é bem tênue, Nestor...
- ...
- A turma já estava desesperada, - e o dono da festa não sabia mais o que fazer e onde procurar você. Viramos a cobertura e as dependências comuns do prédio pelo avesso. E cadê você?
- Puta que me pariu, cadê eu?...
- No armário. Dentro do armário da filha do dono da festa. Dormindo em cima do próprio vômito.
- Aaaargh! Será que era meu mesmo?...
- Desta vez você se superou!
- Ah, nem tanto! Já fiz muito pior...
- Agora me conta? E a velha?
- Velha? Que velha?...
- A sogra do André. Aquela velha metida a mocinha com quem você saiu da festa? E aí?... É mesmo verdade aquela história que conta que "panela velha é que faz comida boa"? Ela ainda está aí?...
- ?... Ô cara!... Brincadeira tem hora!!!
- Iiiih! Já vi que...

Nestor largou o fone no chão. E começou a andar pela casa... Procurou, procurou e... procurou... Não encontrou ninguém.

- Alô, você ainda está aí?...
- Mas é claro. Não quero perder nem um capítulo deste novo episódio...
- Nada! Aliás nem há vestígios de que tenha havido alguém além de mim por aqui.
- Menos mal, mas... você saiu da festa no carro da coroa. Todos vimos! Onde será que você largou a dita?...
- Sabe deus!... Qual é a boa de hoje?
- Ainda não sei... A gente se encontra lá no Amarelinho no final da tarde.
- Combinado!

Nestor desligou o telefone e colocou a cafeteira para funcionar. Era preciso rearranjar os "bits" antes de ir para o escritório. "Nossa! Eu estou ficando incontrolável. Preciso dar um jeito nesta minha vida... Há momentos em que acho que essa minha fissura pelo alcóol é mesmo uma doença..."

Quando saiu do elevador percebeu que havia um certo tumulto na portaria. O porteiro acenou para ele.

- O que houve, Zé?
- Como, sêo Nestô? U sinhô num ôviu a confusão, a gritaria aqui em baixo? A puliça inda num bateu na sua casa, não?... Os ôme tão ino de apartamento em apartamento...
- O que você está me dizendo, Zé?... Me explica essa história direito.
- Ué! Tem um presunto lá no vão das área de sirviço. Ninguém sabe quem é... Se escarrapachô na madrugada. Caiu... ô foi jogado dos último andar porque o estrago...

Apesar da náusea que a ressaca providenciava, Nestor foi até lá. Iam ensacar o corpo no exato momento em que se aproximou para olhar.

"Santo Deus!..." - o pensamento era um mar revolto.

E o pavor deve ter tomado forma em seu rosto pois imediatamente o policial que estava demarcando o lugar indagou:


- O senhor a conhecia?...
- Preciso de um gole! - Foi tudo que conseguiu dizer...

ju rigoni (sem registro de data)

Imagem obtida AQUI.


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ju rigoni escreveu. Publicado às 5:54 PM |
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Quinta-feira




Este é o Prólogo

(Federico Garcia Lorca)

Deixaria neste livro
toda a minha alma.
este livro que viu
as paisagens comigo
e viveu horas santas.

Que pena dos livros
que nos enchem as mãos
de rosas e de estrelas
e lentamente passam !

Que tristeza tão funda
é olhar os retábulos
de dores e de penas
que um coração levanta !

Ver passar os espectros
de vida que se apagam,
ver o homem desnudo
em Pégaso sem asas,

ver a vida e a morte,
a síntese do mundo,
que em espaços profundos
se olham e se abraçam.

Um livro de poesias
é o outono morto:
os versos são as folhas
negras em terras brancas,

e a voz que os lê
é o sopro do vento
que lhes incute nos peitos
- entranháveis distâncias.

O poeta é uma árvore
com frutos de tristeza
e com folhas murchas
de chorar o que ama.

O poeta é o médium
da Natureza
que explica sua grandeza
por meio de palavras.

O poeta compreende
todo o incompreensível
e as coisas que se odeiam,
ele, amigas as chama.

Sabe que as veredas
são todas impossíveis,
e por isso de noite
vai por elas com calma.

Nos livros de versos,
entre rosas de sangue,
vão passando as tristes
e eternas caravanas

que fizeram ao poeta
quando chora nas tardes,
rodeado e cingido
por seus próprios fantasmas.

Poesia é amargura,
mel celeste que emana
de um favo invisível
que as almas fabricam.

Poesia é o impossível
feito possível. Harpa
que tem em vez de cordas
corações e chamas.

Poesia é a vida
que cruzamos com ânsia,
esperando o que leva
sem rumo a nossa barca.

Livros doces de versos
sãos os astros que passam
pelo silêncio mudo
para o reino do Nada,
escrevendo no céu
suas estrofes de prata.

Oh ! que penas tão fundas
e nunca remediadas,
as vozes dolorosas
que os poetas cantam !

Deixaria neste livro
toda a minha alma...

( tradução: William Agel de Melo )


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ju rigoni escreveu. Publicado às 8:12 PM |
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Domingo




Hummm!...

Tomate e pepino picados...
Trigo lavado e espremido,
cebola e hotelã triturados...

Misturo. Misturo bem,
com sal, azeite, limão,
uma pitada de pimenta síria,
e a lembrança
de uma outra cozinha,
que ficou lá no passado...
Outras mãos,
rechonchudinhas,
arrumando o tabule,
ora sobre o alface,
ora sobre a folha de pão...

Ui, que saudade!
Ai, que delícia!
Além do tabule e do hommus,
o aroma do quibe a assar,
a perfumar o ambiente...

Pão sírio, pão árabe,
pão marmita, pão folha...
Pão que reparte a minha história...
Memórias de uma infância
com sabor de poesia...

ju rigoni (sem registro de data)


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ju rigoni escreveu. Publicado às 7:05 PM |
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Solo Le Pido A Dios

Sólo le pido a Dios
Que el dolor no me sea indiferente,
Que la reseca muerte no me encuentre
Vacío y solo sin haber hecho lo suficiente.

Sólo le pido a Dios
Que lo injusto no me sea indiferente,
Que no me abofeteen la otra mejilla
Después que una garra me arañó esta suerte.

Sólo le pido a Dios
Que la guerra no me sea indiferente,
Es un monstruo grande y pisa fuerte
Toda la pobre inocencia de la gente.

Sólo le pido a Dios
Que el engaño no me sea indiferente
Si un traidor puede más que unos cuantos,
Que esos cuantos no lo olviden fácilmente.

Sólo le pido a Dios
Que el futuro no me sea indiferente,
Desahuciado está el que tiene que marchar
A vivir una cultura diferente.

Ouça Aqui.


A voz símbolo da resistência na América Latina, que embalou sonhos revolucionários jamais se calará. Onde houver injustiça, lá estará a voz poderosa, guerreira, a levantar véus e, sem medo, expor a verdade...
Não existe morte para tamanho feito...


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ju rigoni escreveu. Publicado às 9:12 PM |
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Quinta-feira




Pretéritos...

Guardados assim,
na gaveta
da escrivaninha antiga,
entre traças e cupins,
textos, fotografias, -
uns sobre os outros,
amarelados, rendados,
semi-destruídos...
Guardados, não!...
Escondidos de mim...
no velho porão.

Tirá-los de lá?
Mexer nas feridas?...
Tentar curá-las?!
Soprar-lhes ainda alguma dita?...
Não sei...

Por qual razão os esqueci?
Por que abanonei ali
parte da minha vida?

Por quais estranhos caminhos
fui reconduzida a um passado,
que de tão passado
a pragas serve de alimento?...

Por que só agora
a memória
o devolve a mim?...

ju rigoni (sem registro de data)


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ju rigoni escreveu. Publicado às 11:06 AM |
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Terça-feira





















Oásis

O leitor me escreve,
e a sua mensagem, -
como num passe de mágica -,
me rejuvenesce.

Descreve-me em suas linhas
sem conhecer as linhas
a erodir-me o rosto.

Ah, que desgosto
teria esse leitor
se pudesse me ver
como eu realmente sou...

O espelho que ele envia
me reflete em novo ânimo.
Palavras sem rugas,
sem artrite, sem hipotermia...
sem pânico!

De repente,
de urtiga a flor bela e delicada,
desabrochando no canteiro
da imaginação de um leitor,
que me acredita ainda a mulher
que ele vê na fotografia antiga...

Ah, eu adoro esse leitor,
que se declara apaixonado
por uma imagem do passado,
e nem imagina o milagre
que suas palavras
operam em mim...

Ao abrir a caixa de correio
para ler as novas mensagens,
não resisto!...
Abro o arquivo, -
leio e releio,
entre incrédula e encantada,
suas tão sedutoras miragens...

Blogar tem, sim,
algumas vantagens...
rsrs

ju rigoni (2007)

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ju rigoni escreveu. Publicado às 6:22 PM |
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Sábado




Fatal

Distancio-me dos teus olhos,
faróis a lançar luz
no meu mar de segredos...
Neles, não ouso me debruçar...

Dois círculos mágicos,
duas lindas mandalas,
que alumiam o que eu sei
mas não quero revelar...
Ui! Que olhos!...

...de mergulhar fundo...
de amolecer pedra,
de encrespar o mar,
de enfeitiçar o mundo...

Duas lindas luas
a brilhar num rosto
que é noite de mistério
e sonho...

Procuro um abrigo, -
qualquer coisa
que me livre do perigo
de um mergulho mais fundo
no castanho do seu olhar...

ju rigoni (2002)


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ju rigoni escreveu. Publicado às 5:30 PM |
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Quinta-feira




Espinhos...


Feriu-se
ao tentar colher a flor...
Não é fácil colher flores...
Não é.

Tudo que há para colher
encolhe-se em espinhos...

Ninguém nasce pronto
para colher,
mas para recolher-se...
ser colhido...


ju rigoni (2002)


Imagem obtida aqui.



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ju rigoni escreveu. Publicado às 3:18 PM |
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